O LIXOMÓVEL
Agora mesmo, acaba de passar-me à porta mais uma unidade móvel do sistema poveiro de saneamento básico, do tipo «MV» (especialmente dedicado às freguesias rurais do concelho, que é onde residem os poveiros de segunda e terceira categorias), formado por um camião-cisterna que transporta o recheio de fossas sépticas.
Hoje já passaram três, todos para um campo grande nas proximidades; durante dois, três ou quatro dias (é variável) teremos que conviver com um cheiro nauseabundo, que não se aguenta. Até os cães ladram, em sinal de protesto, porque o fedor lhes fere o faro. Mas as pessoas calam-se!
O munícipe que requisita o serviço paga-o e paga caro, à Câmara; e paga ainda a taxa de salubridade e a taxa de saneamento. A nós, que somos presenteados com o «aroma» que não pedimos, e que rejeitamos, exigem-nos uma taxa de salubridade durante todo o ano; talvez um prémio por termos que suportar o mau cheiro intenso da vacaria do vizinho.
DOIS DEDOS DE CONVERSA Cruzamo-nos à porta do estabelecimento. E como por vezes sucede entre pessoas educadas, nas hesitações do entra-e-sai, foi o costume: faça o favor; o senhor primeiro; primeiro o senhor; faça o favor. Parecia contar já uma bonita idade, que se adivinhava pelo rosto cansado, enrugado. Estático, mirou-me através das lentes grossas dos seus óculos, a sondar as lonjuras das memórias e perguntou: "o senhor não é daqui, pois não?" Não! eu não era dali. Em geografia simplificada, foi o que lhe disse: "a minha cidade fica a dois ou três concelhos a norte daqui, junto à costa". "Então somos vizinhos", exclamou com alegria. Desnovelou a vida: muito novo saíra da terra porque naqueles tempos a vida era difí...
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