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A ESPERA

 A ESPERA

     O mais difícil não será o tempo de espera - à espera de quê? -, mas antes a duração dessa espera, de que não sabemos quando terminará, se é que vai terminar, de uma vez por todas.
     Vai terminar, sim! Talvez depois de amanhã...

     Como será a aurora desse tal novo dia, forçosamente diferente das alvoradas que ao longo dos tempos nos visitaram, sempre carregadas de luz e de novas esperanças?
     Não se sabe, porque dependerá de uma sociedade renovada, extirpada dos maus vícios em que se enredou e das criminosas práticas em que conscientemente se envolveu.
     Por tudo isso, acantonados, vivemos agora um incerto tempo de espera, para muitíssimos de seres humanos uma tremenda injustiça, uma desumanidade!

     Como em tantos outros casos de aflição, preceituam-se louváveis recomendações para atenuar o moderno sofrimento: umas, sem (ainda) rigor científico, alimentam a natural vontade de sobrevivência; outras, de sôfrega voluntariedade, tentam ocupar o espaço cansado ou va…
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OS VERDADEIROS ARTISTAS

OS VERDADEIROS ARTISTAS

     A um mês das eleições legislativas debate-se o que já é sabido, portanto desnecessário. Todavia, há quem tenha descoberto "bandeiras", já velhas, que sempre foram ignoradas; tomam-nas como novas ideias e fortes formas de luta para aliciar votantes - porque nada mais farão (os patrões não iriam gostar).
     Isto acontece sempre que as azêmolas estão nas filas da frente...

     Um exemplo, sobre os Direitos dos Trabalhadores, os quais são consistentemente ignorados ou mesmo desnecessários, consoante as origens. E que ninguém cumpre!

     Recorro à Constituição da República Portuguesa. No Capítulo I do Título III - Direitos e deveres dos trabalhadores - é estabelecido o seguinte:

    "1. Todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, têm direito:
        a) à retribuição do trabalho, segundo a quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de qu…

UMA ROSA NO DESERTO

 UMA ROSA NO DESERTO


     Além do lixo indiferenciado no contentor, deixei ao lado uma caixa com coisas várias, ainda com algum préstimo.

     Angustiou-me o que, de soslaio, estava a ver: uma velhota a remexer no contentor à procura de qualquer coisa para comer. Como uma forte pancada, senti, ali figurado, o peso das injustiças que nos cercam e a revolta contra a desapiedada sociedade, egoísta, que nos cerca e sufoca.

     Uma curta saudação - "boa tarde" - ancorada num sorriso, não negaram uma ponta de orgulho próprio, sinal de quem nunca se vergará até ao fim dos seus dias.

     - Não tem livros, essa caixa? - perguntou.
     - Livros não tem, não.
     - Que pena! Eu adoro ler. Os livros são a minha companhia.

     Uns instantes depois ofereci-lhe um romance. À minha maneira, senti que tinha ganho o dia!

     Entretanto, às portas da grande cidade, que fervilha de gente apressada, há um deserto - com uma rosa! 

VISITA DE ESTUDO

VISITA DE ESTUDO


     Deputados dos dois partidos políticos que formaram o anterior Governo, de péssima memória, realizaram na semana passada uma visita de estudo à unidade militar de Tancos, na sequência da deliberação da constituição de uma comissão parlamentar de inquérito, a propósito do chamado "roubo das armas de Tancos".

     Pretende tal comissão certificar, para que fique oficialmente preto no branco, tudo o que se passou com o estranhíssimo caso. Serão identificados todos os responsáveis (ou quase todos), e apurados todos os factos, o que se afigura tarefa de hercúlea dimensão. O costume!

     Alguma coisa mais se há-de efectivamente saber, porque uma grande parte do sucedido já foi amplamente debatido no parlamento por todos os partidos e complementada com as notícias surgidas de várias frentes.
     Até a imediata demissão do então Ministro da Defesa foi exigida - já! - por aqueles dois partidos. É porque não restavam quaisquer dúvidas...

     Para início dos trabalho…

19 H 35

19 H 35


     Em todos os dias há este preciso momento: trinta e cinco minutos depois das dezanove horas.
     Todavia, este é um momento diferente de todos os outros nos restantes dias de sempre, porque acontece na véspera de Natal. A noite em que as famílias se reúnem para a Consoada, numa tradição sempre renovada com alegria e desejos de novas esperanças.
     Num ano ou noutro há quem tenha de se sacrificar em favor do bem comum, porque assim manda o dever, mas nunca nessa noite serão esquecidos: nem os seus familiares, aos quais se sentem ligados, nem os cidadãos anónimos que os chamam ao pensamento.
     Assim se vive o espírito de Natal!

     Depois das quatro horas ininterruptas concentradas no trabalho, que se alheia dos dias e das noites e apenas tem de assegurar a torrente dos gordos proventos, fiz um intervalo para a Ceia de Natal a que me dizem ter direito: o que havia trazido de casa, como de costume, numa pequena marmita.

     Porque para mim era um dia muito especial, arranj…

NOVA PROFISSÃO

NOVA PROFISSÃO

     Na montra da loja de produtos de beleza e higiene (perfumes, sabonetes e alimentos para gatos), a folha branca A4 anuncia, em letra bem desenhada: "Precisa-se de Colaboradora".
Apenas isso: colaboradora! Mulher, portanto. Para mais informações haveria que investigar, eventualmente, no interior da loja.

     Várias opções seriam possíveis, supõe o anúncio:
 - Um lugar junto da gerência, colaborando com ela, e a quem daria o saber e experiência adquiridos.
 - Conselheira - uma colaboração inestimável - sobre as tendências da moda: novas fragrâncias e raças de gatos.
 - Responsável pela gestão dos recursos humanos da loja - colaboração essencial para o elevado padrão de desempenho do pessoal, visando o aumento da produtividade.
 - Colaborando na representação da empresa (várias vezes premiada) em eventos de promoção das marcas de excelência que muito contribuem para o crescimento da economia nacional.
 - Colaborar na área da fiscalidade, para que tudo bata …

ROSAS E CARDOS

ROSAS E CARDOS

     A avaliar pelo sorriso rasgado do Ministro do Trabalho (também da Segurança Social, que agora não importa, e da Solidariedade, nome sem cabimento), o resultado da reunião da Concertação Social foi um sucesso: os trabalhadores, especialmente os milhares de precários, terão liberdade para continuar as suas lutas.
     Isto, do lado do Governo.

     Do lado do patronato, o patrão dos patrões apresentou-se, no final da mesma reunião, com um sorriso ainda mais franco a justificar a vitória da classe mandante, ainda que pouco produtiva - para produzirem existem os trabalhadores, e quanto mais precários tanto melhor...
     Isto, do lado dos patrões.

     A classe operária, o terceiro grande "parceiro" nas negociações, esteve muito mal representada, como quase sempre. E assim, alguns dos seus mandatados não mostraram grandes tristezas ou sinais de pequenas revoltas. 
     Sinal dos tempos... 

     Na sua tamanha sabedoria (e bondade) o senhor Ministro da Solidariedade …