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A ESPERA



                                                     A ESPERA

     O mais difícil não será o tempo de espera - à espera de quê? -, mas antes a duração dessa espera, de que não sabemos quando terminará, se é que vai terminar, de uma vez por todas.
     Vai terminar, sim! Talvez depois de amanhã...

     Como será a aurora desse tal novo dia, forçosamente diferente das alvoradas que ao longo dos tempos nos visitaram, sempre carregadas de luz e de novas esperanças?
     Não se sabe, porque dependerá de uma sociedade renovada, extirpada dos maus vícios em que se enredou e das criminosas práticas em que conscientemente se envolveu.
     Por tudo isso, acantonados, vivemos agora um incerto tempo de espera, para muitíssimos de seres humanos uma tremenda injustiça, uma desumanidade!

     Como em tantos outros casos de aflição, preceituam-se louváveis recomendações para atenuar o moderno sofrimento: umas, sem (ainda) rigor científico, alimentam a natural vontade de sobrevivência; outras, de sôfrega voluntariedade, tentam ocupar o espaço cansado ou vazio do pensamento.

     Em prolongado tempo de espera, imprevista e inquietante, é cada vez mais importante a leitura, do género que a cada um mais agrade: por essa via, seremos conduzidos, por vontade própria, à exigida reflexão que o momento aconselha.
     E isso importa, para agora e para o futuro.

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VISITA DE ESTUDO

VISITA DE ESTUDO


     Deputados dos dois partidos políticos que formaram o anterior Governo, de péssima memória, realizaram na semana passada uma visita de estudo à unidade militar de Tancos, na sequência da deliberação da constituição de uma comissão parlamentar de inquérito, a propósito do chamado "roubo das armas de Tancos".

     Pretende tal comissão certificar, para que fique oficialmente preto no branco, tudo o que se passou com o estranhíssimo caso. Serão identificados todos os responsáveis (ou quase todos), e apurados todos os factos, o que se afigura tarefa de hercúlea dimensão. O costume!

     Alguma coisa mais se há-de efectivamente saber, porque uma grande parte do sucedido já foi amplamente debatido no parlamento por todos os partidos e complementada com as notícias surgidas de várias frentes.
     Até a imediata demissão do então Ministro da Defesa foi exigida - já! - por aqueles dois partidos. É porque não restavam quaisquer dúvidas...

     Para início dos trabalho…

UMA ROSA NO DESERTO

 UMA ROSA NO DESERTO


     Além do lixo indiferenciado no contentor, deixei ao lado uma caixa com coisas várias, ainda com algum préstimo.

     Angustiou-me o que, de soslaio, estava a ver: uma velhota a remexer no contentor à procura de qualquer coisa para comer. Como uma forte pancada, senti, ali figurado, o peso das injustiças que nos cercam e a revolta contra a desapiedada sociedade, egoísta, que nos cerca e sufoca.

     Uma curta saudação - "boa tarde" - ancorada num sorriso, não negaram uma ponta de orgulho próprio, sinal de quem nunca se vergará até ao fim dos seus dias.

     - Não tem livros, essa caixa? - perguntou.
     - Livros não tem, não.
     - Que pena! Eu adoro ler. Os livros são a minha companhia.

     Uns instantes depois ofereci-lhe um romance. À minha maneira, senti que tinha ganho o dia!

     Entretanto, às portas da grande cidade, que fervilha de gente apressada, há um deserto - com uma rosa!