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                           MUDOS E MENTIROSOS

     Está assegurado: logo que regresse do Brasil, o Presidente Marcelo vai querer saber (presumo que da parte do Primeiro-Ministro) como foi toda aquela história, ultimamente tão falada, da ida de três Secretários de Estado a Paris para assistirem a jogos de Portugal no campeonato Europeu 2016, com convites (bilhetes de ingresso e viagens aéreas) oferecidos pela portuguesa Galp. Sua Excelência quererá saber da pouca vergonha que agora parece grassar no reino lusitano.
     Acho bem - porque vergonhaças passadas já houve que bastassem!

     Isto foi divulgado duas semanas depois da explosão de alegria pela conquista do título de campeão europeu de futebol: deu-se tempo para as celebrações. Depressa se esqueceram os felizes momentos: alguém decidiu ser chegada a altura ideal para animar a época do nosso pindérico circo político.

     À espera que passe a nuvem de poeira, há uma vastidão de gente acocorada: políticos, em exercício e em conserva, jornalistas, comentadores, gestores, eu sei lá! Muitos nem gostam de futebol, mas..."eu estive lá".

     Teria sido uma excelente jogada publicitária se cada um dos milhentos convidados empunhasse uma bandeirinha, ou um chapéu ou barrete, com o nome ou o símbolo da empresa benemérita; não faltaria quem ostentasse vários. Como se ficaram pelo cachecol verde-rubro, nada se revelou sobre (perigosas) ligações a empresas e demais poderes económicos e outros interesses.
     Para justificarem as fugas às suas obrigações regimentais e aos compromissos para com os eleitores, os políticos mais conhecidos mentiram ao Parlamento (declaração assinada). Isso mesmo: mentiram!

     Três foram as vítimas da epidemia de repentina honestidade, só porque são membros do Governo; ninguém pode garantir que venham a ser influenciados em futuras decisões políticas. Esses não mentiram!

     Resta um ponto relevante, que propositadamente tem ficado à margem do circo: a mesma questão, mas vista do lado das empresas simpáticas. 
Primeiro: conhece-se apenas uma - a Galp - que considera a oferta de convites (deste tipo e doutros) como prática corrente, e desde sempre. Se houver vontade, e interesse, consegue-se saber quem já foi convidado, agora e antes, e isso diz-nos muitíssimo.
Segundo: sobre as outras grandes empresas de impacto semelhante, incluindo bancos, nada é referido. Todos prudentemente calados!

     O país emudeceu! 

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