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                         A  ÓPERA  FOI À  TOURADA

(Nota: este texto, escrito em 14Jun96, foi publicado no "Comércio da Póvoa", em 18.07.1996)

     Segui, ansioso, e tanto quanto me foi possível, a azáfama dos operários em redor da decrépita Praça de Touros. Com paciência e carinho eliminaram eles os amontoados de terra, cavaram o terreno para prepararem plataformas amplas, lisas e bem desenhadas, aptas para o escoamento rápido das chuvas nos tempos invernosos. Lentamente e com arte burilaram as pedras grandes de granito a formarem uma ala larga, provavelmente para a entrada das pessoas em massa. Por último, vi nascer a relva verde a alindar o local e as árvores a crescerem, prometedoras de sombras.
     Finalmente! Dera-se início, começando pelo arranjo exterior, à tão desejada transformação da Praça. Isto pensei eu, mas talvez me tenha enganado. E como confesso desconhecer os planos urbanísticos para aquela área (e devia conhecê-los), não sei se, vendo passar o tempo, deva acreditar que "aquilo" é para ser mantido assim, a bem da riqueza do nosso património: num futuro mais ou menos próximo teremos ruínas no centro da cidade.
     Devo também acreditar - e sinceramente acredito - que aquela infraestrutura vai ser reparada e modificada para utilização de gente imensa, de todas as idades e amante de actividades diversas. Oxalá!

     Há muitos anos (como o tempo passa!), e lembrando-me do pouco uso que era dado à Praça de Touros, imaginei-a transformada num pequeno "Madison Square Garden" (na altura estava nos Estados Unidos, e daí a lembrança); agora, reduzidos os horizontes da nossa imaginação, poderíamos muito bem baptizá-la com um nome português e poveiro, mas dar-lhe, de igual modo, uma finalidade polivalente (desportiva, musical, cultural, etc.).
     Para tantas ideias existem em abundância soluções técnicas fáceis que tornam esta empresa viável e rentável. Vale a pena o esforço.

     A ópera "Aida" esteve em Bruxelas durante três dias, fora larga e antecipadamente anunciada, e as lotações esgotaram-se. Os bilhetes foram adquiridos com a maior das facilidades (por correio), mercê duma organização experimentada. O local, diferente do habitual, seria desta vez num dos doze pavilhões do Parque de Exposições da capital belga. Duvidei, por conhecê-los bem, que tivessem a possibilidade de se adaptarem a um tal tipo de espectáculo, mas enganei-me: o interior, usualmente oco, fora facilmente transformado numa enorme sala de espectáculos recorrendo-se à montagem de bancadas e à delimitação dum palco amplo, como exigia a clássica representação; de facto, se não se conhecesse o recinto, não se duvidaria ser aquela sala enorme uma estrutura permanente com plateia, balcões, etc., alindada com passadeiras, e os milhares de lugares  (cadeiras) devidamente numerados; importa ainda notar que as condições acústicas não foram esquecidas, e os técnicos tiveram oportunidade de porem à prova as suas capacidades.
     Enfim, uma grande beleza no meio de tanta simplicidade!

 (Um àparte que considero interessante, fruto também de boa organização: junto ao pavilhão fora demarcado um parque de estacionamento com capacidade para todos os espectadores, e ao qual tinham acesso apenas os carros cujos utentes apresentassem os bilhetes de ingresso).

     Como sempre, também nesse caso, imaginei naquele dia a nossa poveira praça de touros preparada para apresentar, com dignidade e simplicidade, um espectáculo de uma categoria semelhante. Quando será isso possível?

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