Monday, May 21, 2012


                     O  ALTO  FUNCIONÁRIO

   De entre os 230 devotados deputados da Nação, uma dúzia de sacrificados ministros e um montão de diáfanos secretários de Estado, nunca se ouviu - que me recorde -, estas palavras consoladoras que deveriam ser uma constante na nossa vida política:

   "Eu não minto, não engano, não ludribio".

   Aconteceu no Parlamento, a nove deste mês de Maio enganador (pelo tempo que faz). E quem o disse foi o Alto Funcionário, do Governo e da Função Pública, Vítor Gaspar. Assim mesmo: pausadamente e bem explícito.
   E num remate, para desfazer futuras dúvidas:

   "A política de verdade é para mim uma convicção absoluta".

   O Alto Funcionário falou e a plateia continuou adormecida!

Monday, May 07, 2012


                               FRASES  QUE  MARCAM

   Há frases que percorrem os tempos e são sempre sábias. Porque foram sábios quem as proferiu, ditadas pela experiência ou pelo saber, e não por vaidades ou pelos efémeros lugares de destaque na sociedade. São ensinamentos que tantas vezes servem de guia, sempre que a razão não abunda.
   Assistimos, hoje em dia, por tudo e por nada, e por todos os meios, a um rosário de frases feitas sem significação válida. Que não se reflectem como pensamento sério ou profundo ou, no mínimo, exacto. E não havendo possibilidade de escolha na aceitação, são tidas como dogma.
   Inválidas, pois!

   Apenas dois exemplos, relativamente recentes, de frases ditas por dois altos responsáveis no nosso sistema político: nesses casos, a sua análise aprofundada leva-nos muito para além do valor do seu conteúdo, e isso é o que mais nos deve preocupar.

   Nas vésperas de ser eleito Primeiro-Ministro de Portugal, Passos Coelho dirigiu-se ao povo português - ansioso por uma mudança política em que acreditava -, nos seguintes termos:
   "Já ouvi o Primeiro-Ministro José Sócrates dizer que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13º mês, mas isso é um disparate".
   Sabemos o que fez, mal meteu a chave à porta: acabou com o 13º mês e com o 14º mês, e mais outras coisas que, em seu entender, são disparates.
   O que devemos então concluir daqui? Aceitar a mentira descarada? Assistir pacificamente à semente da desonestidade? Como podem os cidadãos, a partir desse momento, dar um voto de confiança em qualquer acto político do primeiro-ministro (se não lhes forem dadas verdadeiras razões)?

   A propósito de silêncios cautelosamente geridos - quando o discurso teria sido necessário -, o Presidente da República, Cavaco Silva, afirmou publicamente:
   "Para serem mais honestos do que eu têm de nascer duas vezes".
   E mais não disse, nem lhe foi perguntado!
   A frase, bem marcante, encerra dois conceitos: um, o auto-elogio desnecessário sobre a noção de honestidade, que é inquestionável no caso do detentor do mais alto e dignificado cargo da Nação; outro, uma espécie de confronto ou desafio a todos os honestos concidadãos, estes sem meios de prova por não poderem voltar a nascer, e a consideração de uma escala de valores para a honestidade, que não é aceitável.

   Foi dito, está dito!
   Disseram!

   Resta a cada um de nós - os alvos daquelas frases marcantes - fazer o seu juízo.

Tuesday, May 01, 2012

                   
                           CRIMES  DA  AUSTERIDADE

     Medidas de austeridade eram necessárias desde há anos: o regabofe dos abusos despesistas por parte do Estado e organismos adjuntos corria com o freio nos dentes, sem que houvesse uma qualquer tomada de consciência geral nem um qualquer reparo por parte das oposições políticas.
     Alguém haveria um dia de pagar o preço elevado de tal factura. Nunca ninguém imaginou, porém, que os pagantes seriam aqueles a quem nem uma migalha lhes calhara das sobras dos banquetes.
     Os vampiros tomaram-lhe o gosto e não descansam enquanto não esmagam a pouca resistência daqueles que ainda a conseguem ter, necessária para a sua sobrevivência.

     Os sacrifícios têm que ser repartidos por todos, é o que cândida e hipocritamente anunciam, com ar grave, quase solene. Só não esclarecem que esses "todos" são todos aqueles que menos posses têm e só vêm negrume à sua frente. E de nada são culpados, a não ser terem confiado nos que muito prometeram e juraram servir o país com denodo e honestidade.

     Há pessoas, em princípio altamente qualificadas, que afirmam ser necessária tamanha austeridade para que possa haver um futuro melhor! Essas pessoas não querem ver o que se passa à sua volta nem lhes interessa perceber o que possam ser os dias de hoje e de amanhã dos seus desgraçados concidadãos.

     Nada de novo até aqui!

     O que acrescento de novo é que é obrigatório repensar, hoje, o percurso que Portugal seguiu desde a queda da Ditadura até se atingir o inimaginável estado de degradação em que se vive, agora em Democracia.

     Altos responsáveis políticos executam medidas que se tornam atentórias da dignidade humana, fazendo letra morta do consagrado na Constituição da República. Em vez da procura de alguma justiça social, agora tão necessária, agravam as desigualdades e matam a esperança.
     Em vez da (re)descoberta das possibilidades de desenvolvimento preferem, porque é mais fácil e mais rentável, destruir e não construir; sistematicamente, como que obedecendo a leis que nos são estranhas.

     Acrescento mais: estão a eliminar os melhores sentimentos do povo português, os mesmos sentimentos que tanto ajudaram a suportar outros tempos bem difíceis. Em seu lugar, além das crescentes incertezas do futuro, mesmo longínquo, instala-se o medo.

     As pessoas sentem o terror do medo!