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INVERNO E PRIMAVERA

Acabei de reler "O Inverno do Nosso Descontentamento" ("The Winter of Our Discontent"), do americano John Steinbeck, Prémio Nobel da Literatura em 1962, e dei por bem empregue o meu tempo.
Decorrendo a acção do livro numa pequena cidade dos Estados Unidos, e a seguir à 2ª Grande Guerra, é espantosa a actualidade dos temas nele focados, que agora podemos considerar como se estivessem acontecendo entre nós. Afinal, aquilo que então se passou, tão bem descrito por J.Steinbeck, galgou as fronteiras e multiplicou-se como um vírus. Chegou até nós!
No centro do romance reside o dinheiro ("dinheiro atrai dinheiro"), a hipocrisia e os falsos valores que habitam nas engrenagens da sociedade, em todos os níveis.
Mas há quem não aceite a riqueza oferecida e prefira continuar a ser pobre, mas viver com dignidade e ser por todos respeitado, honrando-se a si próprio e a sua família, e mantendo presente a nobreza de carácter dos seus antepassados.
Lê-se na introdução, que "os leitores que pretendam identificar as personagens fictícias e os locais neste livro descritos fariam melhor se examinassem as suas próprias comunidades, pois este livro abrange uma extensa parte da América".
Não será precisa muita imaginação para que o conteúdo de "O Inverno do Nosso Descontentamento" seja um espelho de muitas cidades portuguesas, incluindo a nossa, e nele se vejam as "impressões digitais" de certos indivíduos.

Comments

Curioso!
Estou precisamente a ler este livro, numa edição de 1963.
Gosto mais do "As vinhas da ira" mas Steinbeck é, de facto, um grande escritor. Tão realista que é fácil extrapolar a trama para o mundo de hoje e para qualquer lugar do mundo.

PS - De Literatura Americana contemporânea recomendo o "O Animal Moribundo" de Philip Roth; se quiser empresto-lho.
Estamos portanto de acordo: a "receita" serve cá no burgo, para uns certos "senhores".
Agradeço a sua oferta de empréstimo do livro que refere; vou tentar encontrá-lo durante a semana que estarei fora;pedi-lo-ei se não o achar.
Caríssimo:

Tomo a liberdade de recomendar o pedagogo brasileiro Paulo Freire
(ilustre pernambucano) e o seu livro: "Educação como prática da liberdade".

Seria muito útil que alguns tiranetes da nossa praça (lato sensu...) o lessem. O destinatário original seria o Brasil, mas, isto está cada vez mais "abrasileirado", portanto, há detentores do poder que precisam de um "banho de pedagogia"...

Não quero insinuar nada sobre a "porca da política"...

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