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AS GUERRAS DOS OUTROS

AS GUERRAS DOS OUTROS

     Em 9 de Abril de 1918 - há cem anos - o Exército Português (as Forças Armadas portuguesas) combatia no inferno de La Lys, no Norte de França, ao lado das tropas francesas contra as poderosas forças alemãs, depois da declaração de guerra da Alemanha a Portugal.
     Morreram muitos milhares de soldados portugueses, e muitos milhares ficaram feridos e com graves doenças.

     Hoje foi dia de homenagear com solenidade tantos heróis - sim, todos foram heróis - e as suas famílias. Nunca serão demasiadas as justas palavras que se digam, e também nunca secarão as lágrimas que por eles se choram.

     Hoje, e num acto de solidariedade e fraternidade, também deveria ser dia de honrar os militares portugueses que, mesmo não envolvidos numa guerra, estão prontos, por juramento solene, a defender a nossa Pátria.

     Na mesma Primeira Grande Guerra, muitos soldados indianos foram recrutados para combaterem na Inglaterra, ao serviço do seu rei-imperador. Um dos súbditos solda…
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EMPREGO E DESEMPREGO

EMPREGO E DESEMPREGO

     Os números do desemprego agora revelados confirmam o que já se pressentia: para além da dificuldade em contabilizá-los com exactidão, persiste a manutenção de princípios que ajudam a esconder as realidades, que têm sido regra nas políticas do trabalho e servido para jogos de interesses vários, e nunca para a melhoria das condignas condições dos trabalhadores.

     Mas o desemprego diminuiu, é certo, e isso é bom.

     Neste âmbito - o do trabalho - o maior cancro social reside no regime dos trabalhadores precários (empresas privadas), em que predomina a exploração do trabalhador, quer pelos salários muito baixos, quer pelas condições desumanas  (físicas e de coacção moral), quer ainda pela incerteza de possibilidade de permanência no emprego.

     Exemplos há muitíssimos, e as empresas regem-se todas pela mesma cartilha: uma vez admitidos (após concurso), os futuros trabalhadores pagam a exigente formação do seu próprio bolso (igual ou mais que um mês de vencime…

XIS PONTO ZERO

 XIS PONTO ZERO

1. Os avanços tecnológicos, em especial no domínio da informática, maravilham-nos. E a cada dia que passa, espantosamente, mais se inova, para bem das sociedades, espera-se.
    O desenvolvimento da ciência e a aplicação de tamanhos progressos podem levantar algumas questões: definição de prioridades (investigar o quê) e consequências para a humanidade (benefícios e malefícios).
    As próprias sociedades, por intermédio de variadíssimos organismos, devem vigiar os caminhos seguidos por tantos avanços. Não há outro meio. Esvoaçam zeros...

2. No nosso dia-a-dia já usufruímos de alguns dos efeitos práticos das novas tecnologias: por exemplo, é-nos facilitada a vida para pagarmos impostos, mas para se reclamar um erro ou qualquer prejuízo que nos causem, volta-se ao tempo da ardósia. Ficam os zeros...

3. Ainda agora sucede: um trabalhador despedido recebe um impresso próprio da Segurança Social, já preenchido com os dados que irão ser exigidos, e entrega na Repartição da sua á…

NÚMERO PRIVADO

NÚMERO PRIVADO

     Tenho por norma não atender telefonemas de números privados - de boa gente, ou de boa coisa, não serão, penso. Abri hoje uma excepção, mesmo sendo na hora de almoço: é dia de Carnaval, dia de folia, e quase feriado...
     Disse o seu nome, que não fixei, e mencionou o nome duma empresa (ou seria duma associação de protecção a crianças e desprotegidos?), que também não registei.
     Repetiram, a meu pedido, para ficar com a certeza. Respondi clara e prontamente: "ainda ontem me ligaram" (teria sido do mesmo poiso?), "e dei-lhes a resposta que agora lhe vou dar: peço desculpa, não estou interessado" (mas porquê pedir desculpa?). 
     Agradeceu, submissa, e adivinhei tristeza na sua voz, que terá ficado gravada.

     Enquanto almoçava, no relativo conforto do que por estes tempos se pode dispor, aquela colaboradora (moderno termo pretensamente valorizado, de trabalhadora), não pude tirar da mente aquela pessoa do telefonema. E pensei na espécie do s…
PALAVRAS E SENTIMENTOS

     Filho de um agricultor com uma plantação de amendoins, o pequeno Jimmy cresceu num são ambiente familiar, marcadamente religioso, e pobre: a casa onde cresceu não tinha água corrente nem electricidade. Na Geórgia, nos Estados Unidos da América.
     A escola abriu-lhe os horizontes que haveriam de o levar a conseguir a concretização do seu desejo maior: ser um Homem!
     E conseguiu.

     Sempre bom aluno, na universidade seguiu engenharia. Admitido à Academia Naval dos Estados Unidos, terminou o curso entre os dez primeiros, numa longa lista.
     Serviu nos submarinos. Mais tarde, entrou na área da advocacia.

     Não sendo homem de grandes falas, usava-as com o sentido preciso do juízo e do apreço, com genuíno sentimento, mas nem sempre bem compreendido.

     Cumprido o seu dever como militar e tendo dado todo o seu saber ao seu país, deixou a Marinha no posto de capitão-de-mar-e-guerra.

     Falamos de Jimmy Carter.

     Governador do Estado da Geórgia, candid…

A Saúde dos Outros

A SAÚDE DOS OUTROS

1. Depois da intervenção cirúrgica à outra anca, o prestigioso ortopedista, professor catedrático, elaborou o requerido relatório para avaliação do grau de incapacidade, a ser certificado por uma Junta Médica, como manda a lei. Aplicou-se a tabela em vigor: 65% de incapacidade motora.
     Uns anos depois nasceu uma nova versão da lei, neste particular da saúde, com diminuição nos parâmetros, para "maior rigor e transparência". Nova avaliação.
     Reunido o trio da Junta Médica (um clínico era muito novo), debruçaram-se sobre o novo relatório, semelhante ao anterior, e após algumas perguntas de circunstância e alguma cogitação, decidiram o novo grau de incapacidade: 62%!
     A continuar assim, qualquer dia o utente da saúde ficará em estado de novo e dispensa as próteses!

2. A professora tinha cancro há alguns anos, e estava a fazer tratamento. Notava-se claramente, e custava-lhe muito ter que enfrentar os seus alunos. Para além do sofrimento físico, tinha qu…

COUVES E TRAPOS

COUVES E TRAPOS

     Tive que esperar largos minutos até chegar a minha vez para comprar selos.
 À minha frente estava uma mulher do povo, fortalhaças, vestida de preto, e na casa dos cinquenta.
     Era impossível não ver nem ouvir a funcionária dos correios ir contando, e cantando, as notas que ia colocando no balcão: cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos...
     Fiz um esforço para não ouvir mais.

     Olhei à volta e calculei, pelo que vi, que devia ser dia de pagamento de pensões.

     Curiosamente, àquela mesma hora discutia-se no Parlamento - no nosso Parlamento - a questão ignominiosa dos contratos de trabalho precários e correspondentes vencimentos miseráveis, que atingem milhares de pessoas, muitas delas com formação superior; e, como se verifica, há deputados, alinhados com certo tipo de patronato, que ainda gastam o seu tempo a discutir este problema, que nos envergonha.

     Fiquei a matutar naquela cena passada nos correios. Aquela cara não me era estranha! Creio j…