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PALAVRAS E SENTIMENTOS

     Filho de um agricultor com uma plantação de amendoins, o pequeno Jimmy cresceu num são ambiente familiar, marcadamente religioso, e pobre: a casa onde cresceu não tinha água corrente nem electricidade. Na Geórgia, nos Estados Unidos da América.
     A escola abriu-lhe os horizontes que haveriam de o levar a conseguir a concretização do seu desejo maior: ser um Homem!
     E conseguiu.

     Sempre bom aluno, na universidade seguiu engenharia. Admitido à Academia Naval dos Estados Unidos, terminou o curso entre os dez primeiros, numa longa lista.
     Serviu nos submarinos. Mais tarde, entrou na área da advocacia.

     Não sendo homem de grandes falas, usava-as com o sentido preciso do juízo e do apreço, com genuíno sentimento, mas nem sempre bem compreendido.

     Cumprido o seu dever como militar e tendo dado todo o seu saber ao seu país, deixou a Marinha no posto de capitão-de-mar-e-guerra.

     Falamos de Jimmy Carter.

     Governador do Estado da Geórgia, candid…
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A Saúde dos Outros

A SAÚDE DOS OUTROS

1. Depois da intervenção cirúrgica à outra anca, o prestigioso ortopedista, professor catedrático, elaborou o requerido relatório para avaliação do grau de incapacidade, a ser certificado por uma Junta Médica, como manda a lei. Aplicou-se a tabela em vigor: 65% de incapacidade motora.
     Uns anos depois nasceu uma nova versão da lei, neste particular da saúde, com diminuição nos parâmetros, para "maior rigor e transparência". Nova avaliação.
     Reunido o trio da Junta Médica (um clínico era muito novo), debruçaram-se sobre o novo relatório, semelhante ao anterior, e após algumas perguntas de circunstância e alguma cogitação, decidiram o novo grau de incapacidade: 62%!
     A continuar assim, qualquer dia o utente da saúde ficará em estado de novo e dispensa as próteses!

2. A professora tinha cancro há alguns anos, e estava a fazer tratamento. Notava-se claramente, e custava-lhe muito ter que enfrentar os seus alunos. Para além do sofrimento físico, tinha qu…

COUVES E TRAPOS

COUVES E TRAPOS

     Tive que esperar largos minutos até chegar a minha vez para comprar selos.
 À minha frente estava uma mulher do povo, fortalhaças, vestida de preto, e na casa dos cinquenta.
     Era impossível não ver nem ouvir a funcionária dos correios ir contando, e cantando, as notas que ia colocando no balcão: cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos...
     Fiz um esforço para não ouvir mais.

     Olhei à volta e calculei, pelo que vi, que devia ser dia de pagamento de pensões.

     Curiosamente, àquela mesma hora discutia-se no Parlamento - no nosso Parlamento - a questão ignominiosa dos contratos de trabalho precários e correspondentes vencimentos miseráveis, que atingem milhares de pessoas, muitas delas com formação superior; e, como se verifica, há deputados, alinhados com certo tipo de patronato, que ainda gastam o seu tempo a discutir este problema, que nos envergonha.

     Fiquei a matutar naquela cena passada nos correios. Aquela cara não me era estranha! Creio j…

ILHA RAINHA

ILHA RAINHA

     No vasto Oceano Pacífico, a Sul, o gigante dos mares saltita de ilha em ilha - miríades de ilhas - como se caminhasse sobre as águas.
     Antigamente era assim, pensa-se.

     Muitas dessas ilhas são desabitadas, umas com vegetação luxuriante, outras nem tanto. Umas com praias de areias douradas, outras com água límpida em recantos entre rochedos.
     Antigamente era assim, sabe-se.

     Uma dessas ilhas, a ilha Henderson, foi a escolhida pelo bicho-homem para se tornar no maior montão de lixos plásticos à face da terra. Calcula-se que ela contenha 38 milhões de artigos plásticos, que a sufocam.
     A ilha é lixo!

     Ninguém foi à ilha Henderson depositar o seu lixo. Ele saiu de paragens longínquas - das nossas praias, por exemplo - e foi navegando por mares e oceanos, depressa ou lentamente, porque tem para si todo o tempo do mundo.

     Existem no Pacífico muitas ilhas (demasiadas ilhas) de lixo, mas a ilha Henderson será, por enquanto, rainha - para vergonha nossa!

146 ANOS DEPOIS

146 ANOS DEPOIS

     O circo acabou!
     Foi o mais famoso de toda a América: o Circo Ringling Bros.and Barnum & Bailey. Durante um século e meio entusiasmou os habitantes de tantas e tantas cidades, que até então viviam fechados nos pequenos horizontes das suas vidas cinzentas.
    Até mesmo os cartazes a anunciar o "Maior Espectáculo do Mundo" começaram por ser olhados com incredibilidade: mulheres de pernas ao léu e homens de tronco nu! E verem-se de perto: elefantes (afinal, eles existiam mesmo...), leões, cavalos, amazonas e trapezistas.
     E os palhaços!

     Foi sempre um misto de arte e indústria, que ajudou ao desenvolvimento das cidades e criou raízes de cultura. O circo fazia parte da vida das pessoas, e para muitas crianças ele era a porta dos seus sonhos.

     Num tempo ainda parado, aquele circo trouxe às cidades uma vida nova e distribuiu alegrias. Com ansiedade se esperava a chegada do circo, para mais uma temporada e sempre com novidades nos cartazes, agora…
IMI - AMIZADES E SAFADEZAS

     Na sossegadíssima zona residencial da grande urbe situa-se a vivenda que já fora a mais imponente do quarteirão. Voltou, agora, a tornar-se notada desde que os novos donos, doutores, a remodelaram.
     A compra, uma pechincha, mercê dos tempos que correm. E as obras saíram em conta, que as "ajudas" não faltaram.

     A vistoria à "nova" casa foi cuidadosamente preparada em todos os pormenores, para reduzir ao máximo o futuro valor do IMI: pelos termos comparativos, a Câmara Municipal já tinha começado a salivar...

     Foi acto de pompa a vistoria, feita por engenheiro habilidoso, e que era chefe. O proprietário doutor, engenhoso, seguiu à risca as dicas que as amizades lhe sopraram: nas duas garagens, sem portas, ao fundo do logradouro, ficaram temporariamente instalados um carrinho de mão, umas enxadas, o mini-cortador de relva, uma picareta, dois rolos de mangueira e um pequeno grelhador portátil. Hortaliças...

     À piscina, quase o…
 MUDOS E MENTIROSOS

     Está assegurado: logo que regresse do Brasil, o Presidente Marcelo vai querer saber (presumo que da parte do Primeiro-Ministro) como foi toda aquela história, ultimamente tão falada, da ida de três Secretários de Estado a Paris para assistirem a jogos de Portugal no campeonato Europeu 2016, com convites (bilhetes de ingresso e viagens aéreas) oferecidos pela portuguesa Galp. Sua Excelência quererá saber da pouca vergonha que agora parece grassar no reino lusitano.
     Acho bem - porque vergonhaças passadas já houve que bastassem!

     Isto foi divulgado duas semanas depois da explosão de alegria pela conquista do título de campeão europeu de futebol: deu-se tempo para as celebrações. Depressa se esqueceram os felizes momentos: alguém decidiu ser chegada a altura ideal para animar a época do nosso pindérico circo político.

     À espera que passe a nuvem de poeira, há uma vastidão de gente acocorada: políticos, em exercício e em conserva, jornalistas, comentadores…