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COUVES E TRAPOS

COUVES E TRAPOS

     Tive que esperar largos minutos até chegar a minha vez para comprar selos.
 À minha frente estava uma mulher do povo, fortalhaças, vestida de preto, e na casa dos cinquenta.
     Era impossível não ver nem ouvir a funcionária dos correios ir contando, e cantando, as notas que ia colocando no balcão: cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos...
     Fiz um esforço para não ouvir mais.

     Olhei à volta e calculei, pelo que vi, que devia ser dia de pagamento de pensões.

     Curiosamente, àquela mesma hora discutia-se no Parlamento - no nosso Parlamento - a questão ignominiosa dos contratos de trabalho precários e correspondentes vencimentos miseráveis, que atingem milhares de pessoas, muitas delas com formação superior; e, como se verifica, há deputados, alinhados com certo tipo de patronato, que ainda gastam o seu tempo a discutir este problema, que nos envergonha.

     Fiquei a matutar naquela cena passada nos correios. Aquela cara não me era estranha! Creio j…
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ILHA RAINHA

ILHA RAINHA

     No vasto Oceano Pacífico, a Sul, o gigante dos mares saltita de ilha em ilha - miríades de ilhas - como se caminhasse sobre as águas.
     Antigamente era assim, pensa-se.

     Muitas dessas ilhas são desabitadas, umas com vegetação luxuriante, outras nem tanto. Umas com praias de areias douradas, outras com água límpida em recantos entre rochedos.
     Antigamente era assim, sabe-se.

     Uma dessas ilhas, a ilha Henderson, foi a escolhida pelo bicho-homem para se tornar no maior montão de lixos plásticos à face da terra. Calcula-se que ela contenha 38 milhões de artigos plásticos, que a sufocam.
     A ilha é lixo!

     Ninguém foi à ilha Henderson depositar o seu lixo. Ele saiu de paragens longínquas - das nossas praias, por exemplo - e foi navegando por mares e oceanos, depressa ou lentamente, porque tem para si todo o tempo do mundo.

     Existem no Pacífico muitas ilhas (demasiadas ilhas) de lixo, mas a ilha Henderson será, por enquanto, rainha - para vergonha nossa!

146 ANOS DEPOIS

146 ANOS DEPOIS

     O circo acabou!
     Foi o mais famoso de toda a América: o Circo Ringling Bros.and Barnum & Bailey. Durante um século e meio entusiasmou os habitantes de tantas e tantas cidades, que até então viviam fechados nos pequenos horizontes das suas vidas cinzentas.
    Até mesmo os cartazes a anunciar o "Maior Espectáculo do Mundo" começaram por ser olhados com incredibilidade: mulheres de pernas ao léu e homens de tronco nu! E verem-se de perto: elefantes (afinal, eles existiam mesmo...), leões, cavalos, amazonas e trapezistas.
     E os palhaços!

     Foi sempre um misto de arte e indústria, que ajudou ao desenvolvimento das cidades e criou raízes de cultura. O circo fazia parte da vida das pessoas, e para muitas crianças ele era a porta dos seus sonhos.

     Num tempo ainda parado, aquele circo trouxe às cidades uma vida nova e distribuiu alegrias. Com ansiedade se esperava a chegada do circo, para mais uma temporada e sempre com novidades nos cartazes, agora…
IMI - AMIZADES E SAFADEZAS

     Na sossegadíssima zona residencial da grande urbe situa-se a vivenda que já fora a mais imponente do quarteirão. Voltou, agora, a tornar-se notada desde que os novos donos, doutores, a remodelaram.
     A compra, uma pechincha, mercê dos tempos que correm. E as obras saíram em conta, que as "ajudas" não faltaram.

     A vistoria à "nova" casa foi cuidadosamente preparada em todos os pormenores, para reduzir ao máximo o futuro valor do IMI: pelos termos comparativos, a Câmara Municipal já tinha começado a salivar...

     Foi acto de pompa a vistoria, feita por engenheiro habilidoso, e que era chefe. O proprietário doutor, engenhoso, seguiu à risca as dicas que as amizades lhe sopraram: nas duas garagens, sem portas, ao fundo do logradouro, ficaram temporariamente instalados um carrinho de mão, umas enxadas, o mini-cortador de relva, uma picareta, dois rolos de mangueira e um pequeno grelhador portátil. Hortaliças...

     À piscina, quase o…
 MUDOS E MENTIROSOS

     Está assegurado: logo que regresse do Brasil, o Presidente Marcelo vai querer saber (presumo que da parte do Primeiro-Ministro) como foi toda aquela história, ultimamente tão falada, da ida de três Secretários de Estado a Paris para assistirem a jogos de Portugal no campeonato Europeu 2016, com convites (bilhetes de ingresso e viagens aéreas) oferecidos pela portuguesa Galp. Sua Excelência quererá saber da pouca vergonha que agora parece grassar no reino lusitano.
     Acho bem - porque vergonhaças passadas já houve que bastassem!

     Isto foi divulgado duas semanas depois da explosão de alegria pela conquista do título de campeão europeu de futebol: deu-se tempo para as celebrações. Depressa se esqueceram os felizes momentos: alguém decidiu ser chegada a altura ideal para animar a época do nosso pindérico circo político.

     À espera que passe a nuvem de poeira, há uma vastidão de gente acocorada: políticos, em exercício e em conserva, jornalistas, comentadores…
 O ARRANJINHO

     Na esquina da rua principal ficava a casa de dois pisos onde em tempo, e durante muitos anos, existiu uma taberna, a mais conhecida nas redondezas. Vinhos e petiscos, ambos afamados.

     O comércio em progressivo definhamento e desavenças familiares levaram a casa à ruína: já quase nada restava do antigo casarão.

     Alguém de bastantes posses e bons relacionamentos propôs-se fazer um arranjo na velha casa, prontamente autorizado, sem especial licenciamento, ficando a garantia que seria mantida a estrutura. Naturalmente: era apenas...um arranjinho!

     Durante meses e meses de entaipamento ocultaram-se as obras de restauro. Agora, a descoberto, já se vê a casa renascida, que da estrutura antiga deve conservar apenas o sítio. Irreconhecível, embora bonita, a moradia expandiu-se, aproveitando a boa vontade dos bons relacionamentos e o sempre conveniente espírito do "arranjinho".
     Até o galinheiro, nas traseiras, foi transformado num anexo de semelhante dim…
HONRA E BOM NOME

     É curioso notar a frequência e a letra do discurso de certas figuras públicas, mormente autarcas, quando lhes é apontado um reparo que poderá, eventualmente, pôr em causa a sua integridade moral ou a suspeita de prática de actos de gestão duvidosa. O reparo, escrito ou falado, assume sempre dimensão de crime público, que a Justiça (esperam) irá condenar de modo exemplar.

     As alegações dos queixosos - gente ao serviço do povo - são as mesmas em qualquer caso: ofensas à honra e ao bom nome dos visados.

     Ainda não vi saírem vitoriosos das contendas jurídicas os vilipendiados (sós ou em grupos, os quais se formam para aumentar a "indignação"). Mesmo com recurso a um segundo patamar de julgamento. 
     A virtuosa honra não foi ofendida. Ficou a desonra.
     O bom nome não foi ofendido. Ficou o apelido, tal como no registo.

     Por prática de actos ilegais e abuso de poder, um ex-autarca (sempre foi autarca...) perdeu o mandato do cargo para que fora el…