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NÚMERO PRIVADO

NÚMERO PRIVADO

     Tenho por norma não atender telefonemas de números privados - de boa gente, ou de boa coisa, não serão, penso. Abri hoje uma excepção, mesmo sendo na hora de almoço: é dia de Carnaval, dia de folia, e quase feriado...
     Disse o seu nome, que não fixei, e mencionou o nome duma empresa (ou seria duma associação de protecção a crianças e desprotegidos?), que também não registei.
     Repetiram, a meu pedido, para ficar com a certeza. Respondi clara e prontamente: "ainda ontem me ligaram" (teria sido do mesmo poiso?), "e dei-lhes a resposta que agora lhe vou dar: peço desculpa, não estou interessado" (mas porquê pedir desculpa?). 
     Agradeceu, submissa, e adivinhei tristeza na sua voz, que terá ficado gravada.

     Enquanto almoçava, no relativo conforto do que por estes tempos se pode dispor, aquela colaboradora (moderno termo pretensamente valorizado, de trabalhadora), não pude tirar da mente aquela pessoa do telefonema. E pensei na espécie do s…
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PALAVRAS E SENTIMENTOS

     Filho de um agricultor com uma plantação de amendoins, o pequeno Jimmy cresceu num são ambiente familiar, marcadamente religioso, e pobre: a casa onde cresceu não tinha água corrente nem electricidade. Na Geórgia, nos Estados Unidos da América.
     A escola abriu-lhe os horizontes que haveriam de o levar a conseguir a concretização do seu desejo maior: ser um Homem!
     E conseguiu.

     Sempre bom aluno, na universidade seguiu engenharia. Admitido à Academia Naval dos Estados Unidos, terminou o curso entre os dez primeiros, numa longa lista.
     Serviu nos submarinos. Mais tarde, entrou na área da advocacia.

     Não sendo homem de grandes falas, usava-as com o sentido preciso do juízo e do apreço, com genuíno sentimento, mas nem sempre bem compreendido.

     Cumprido o seu dever como militar e tendo dado todo o seu saber ao seu país, deixou a Marinha no posto de capitão-de-mar-e-guerra.

     Falamos de Jimmy Carter.

     Governador do Estado da Geórgia, candid…

A Saúde dos Outros

A SAÚDE DOS OUTROS

1. Depois da intervenção cirúrgica à outra anca, o prestigioso ortopedista, professor catedrático, elaborou o requerido relatório para avaliação do grau de incapacidade, a ser certificado por uma Junta Médica, como manda a lei. Aplicou-se a tabela em vigor: 65% de incapacidade motora.
     Uns anos depois nasceu uma nova versão da lei, neste particular da saúde, com diminuição nos parâmetros, para "maior rigor e transparência". Nova avaliação.
     Reunido o trio da Junta Médica (um clínico era muito novo), debruçaram-se sobre o novo relatório, semelhante ao anterior, e após algumas perguntas de circunstância e alguma cogitação, decidiram o novo grau de incapacidade: 62%!
     A continuar assim, qualquer dia o utente da saúde ficará em estado de novo e dispensa as próteses!

2. A professora tinha cancro há alguns anos, e estava a fazer tratamento. Notava-se claramente, e custava-lhe muito ter que enfrentar os seus alunos. Para além do sofrimento físico, tinha qu…

COUVES E TRAPOS

COUVES E TRAPOS

     Tive que esperar largos minutos até chegar a minha vez para comprar selos.
 À minha frente estava uma mulher do povo, fortalhaças, vestida de preto, e na casa dos cinquenta.
     Era impossível não ver nem ouvir a funcionária dos correios ir contando, e cantando, as notas que ia colocando no balcão: cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos...
     Fiz um esforço para não ouvir mais.

     Olhei à volta e calculei, pelo que vi, que devia ser dia de pagamento de pensões.

     Curiosamente, àquela mesma hora discutia-se no Parlamento - no nosso Parlamento - a questão ignominiosa dos contratos de trabalho precários e correspondentes vencimentos miseráveis, que atingem milhares de pessoas, muitas delas com formação superior; e, como se verifica, há deputados, alinhados com certo tipo de patronato, que ainda gastam o seu tempo a discutir este problema, que nos envergonha.

     Fiquei a matutar naquela cena passada nos correios. Aquela cara não me era estranha! Creio j…

ILHA RAINHA

ILHA RAINHA

     No vasto Oceano Pacífico, a Sul, o gigante dos mares saltita de ilha em ilha - miríades de ilhas - como se caminhasse sobre as águas.
     Antigamente era assim, pensa-se.

     Muitas dessas ilhas são desabitadas, umas com vegetação luxuriante, outras nem tanto. Umas com praias de areias douradas, outras com água límpida em recantos entre rochedos.
     Antigamente era assim, sabe-se.

     Uma dessas ilhas, a ilha Henderson, foi a escolhida pelo bicho-homem para se tornar no maior montão de lixos plásticos à face da terra. Calcula-se que ela contenha 38 milhões de artigos plásticos, que a sufocam.
     A ilha é lixo!

     Ninguém foi à ilha Henderson depositar o seu lixo. Ele saiu de paragens longínquas - das nossas praias, por exemplo - e foi navegando por mares e oceanos, depressa ou lentamente, porque tem para si todo o tempo do mundo.

     Existem no Pacífico muitas ilhas (demasiadas ilhas) de lixo, mas a ilha Henderson será, por enquanto, rainha - para vergonha nossa!

146 ANOS DEPOIS

146 ANOS DEPOIS

     O circo acabou!
     Foi o mais famoso de toda a América: o Circo Ringling Bros.and Barnum & Bailey. Durante um século e meio entusiasmou os habitantes de tantas e tantas cidades, que até então viviam fechados nos pequenos horizontes das suas vidas cinzentas.
    Até mesmo os cartazes a anunciar o "Maior Espectáculo do Mundo" começaram por ser olhados com incredibilidade: mulheres de pernas ao léu e homens de tronco nu! E verem-se de perto: elefantes (afinal, eles existiam mesmo...), leões, cavalos, amazonas e trapezistas.
     E os palhaços!

     Foi sempre um misto de arte e indústria, que ajudou ao desenvolvimento das cidades e criou raízes de cultura. O circo fazia parte da vida das pessoas, e para muitas crianças ele era a porta dos seus sonhos.

     Num tempo ainda parado, aquele circo trouxe às cidades uma vida nova e distribuiu alegrias. Com ansiedade se esperava a chegada do circo, para mais uma temporada e sempre com novidades nos cartazes, agora…
IMI - AMIZADES E SAFADEZAS

     Na sossegadíssima zona residencial da grande urbe situa-se a vivenda que já fora a mais imponente do quarteirão. Voltou, agora, a tornar-se notada desde que os novos donos, doutores, a remodelaram.
     A compra, uma pechincha, mercê dos tempos que correm. E as obras saíram em conta, que as "ajudas" não faltaram.

     A vistoria à "nova" casa foi cuidadosamente preparada em todos os pormenores, para reduzir ao máximo o futuro valor do IMI: pelos termos comparativos, a Câmara Municipal já tinha começado a salivar...

     Foi acto de pompa a vistoria, feita por engenheiro habilidoso, e que era chefe. O proprietário doutor, engenhoso, seguiu à risca as dicas que as amizades lhe sopraram: nas duas garagens, sem portas, ao fundo do logradouro, ficaram temporariamente instalados um carrinho de mão, umas enxadas, o mini-cortador de relva, uma picareta, dois rolos de mangueira e um pequeno grelhador portátil. Hortaliças...

     À piscina, quase o…